Açúcar: oito perguntas para refletir sem autodiagnóstico
Perceber o que está por trás da pergunta
«Tenho uma dependência do açúcar?» ou «sofro de compulsão por doces?» pode traduzir preocupações diferentes: comer mais do que se pretendia, sentir culpa depois de um doce, pensar frequentemente na comida ou não saber explicar uma situação difícil. Antes de procurar um resultado, tente concretizar o que gostaria de compreender e qual é a preocupação que deseja partilhar.
Este artigo propõe um exercício de reflexão. Não estabelece uma quantidade de açúcar que permita classificar alguém como dependente, nem transforma um hábito isolado numa perturbação. As perguntas servem para organizar a sua experiência e preparar uma conversa, sem exigir uma explicação definitiva ou um rótulo.
O que é a Yale Food Addiction Scale
A Yale Food Addiction Scale, ou YFAS, foi desenvolvida para estudar comportamentos alimentares com características semelhantes às de uma dependência. A versão breve mYFAS 2.0 contém 13 perguntas. Um questionário redigido livremente com oito perguntas e uma soma de 0 a 32 não equivale a esse instrumento. Para utilizar uma escala, é necessário identificar a versão e seguir as respetivas instruções; mencionar o seu nome não valida uma adaptação. Fonte: Food and Addiction Science & Treatment Lab, University of Michigan.
As perguntas seguintes são uma proposta editorial independente. Não reproduzem a YFAS, não têm uma grelha de interpretação clínica e não classificam o consumo como normal, problemático ou grave. As respostas não confirmam uma doença nem garantem a ausência de um problema.
Oito perguntas para explorar a sua experiência
Responda por palavras suas. Pode escolher uma situação recente e descrever aquilo de que se lembra. Não precisa de pesar alimentos, contar calorias ou atribuir uma nota a cada resposta. Pode deixar em aberto aquilo que ainda não consegue explicar.
Dar utilidade às respostas
Escolha uma ou duas observações que considere importantes. Uma frase como «gostaria de falar sobre o que acontece quando…» pode ser suficiente para começar. Pode acrescentar há quanto tempo se preocupa, se alguma coisa mudou e que impacto sente no quotidiano. Não precisa de chegar a uma consulta com uma explicação fechada sobre a origem da dificuldade.
Se preferir não escrever, use as perguntas como orientação para uma conversa. Se registar todos os episódios aumenta o mal-estar, não transforme o exercício numa obrigação. Pode falar também dessa dificuldade durante a consulta. O objetivo é dar espaço à sua experiência, não vigiar todas as decisões alimentares.
Quando procurar uma avaliação profissional
Episódios repetidos de comer muito num curto período, sentir perda de controlo e viver sofrimento merecem atenção. O NIDDK descreve estes elementos entre os sintomas da perturbação de ingestão alimentar compulsiva, juntamente com experiências como comer sozinho por vergonha ou sentir culpa depois. Não são situações limitadas ao açúcar. Se se revê nelas ou tem dúvidas, fale com um profissional de saúde. Fonte: NIDDK, sintomas e causas da perturbação de ingestão alimentar compulsiva.
Pode começar pelo seu médico e perguntar como aceder a uma avaliação do comportamento alimentar. Leve as questões que lhe interessam, mesmo que não estejam nesta lista. A escolha de um tratamento, quando necessário, depende de uma avaliação individual. Este artigo não prescreve dietas, suplementos ou um número fixo de sessões.
Preparar a primeira conversa
Pode explicar o que gostaria de mudar, o que receia e aquilo que espera do acompanhamento. Também pode perguntar qual é a formação do profissional, como decorre a avaliação e que possibilidades de apoio existem. Se uma explicação não for clara, peça que seja reformulada. Não tem de aceitar uma classificação antes de conseguir contar a sua experiência.
Um exemplo fictício de frase de abertura seria: «Preocupa-me a forma como me sinto depois de comer e gostaria de falar sobre isso». Trata-se apenas de uma sugestão para iniciar a conversa, não de um testemunho clínico nem de uma prova de eficácia de um tratamento.
Perguntas frequentes
Posso somar pontos para saber se tenho dependência?
Não. Este exercício não atribui pontos nem contém limites de diagnóstico. A quantidade de perguntas com que se identifica não permite calcular um grau de dependência.
Tenho de responder sim a todas para pedir ajuda?
Não. São perguntas abertas, não uma lista de condições obrigatórias. Pode procurar apoio por uma única preocupação, sem esperar por um determinado número de sinais.
Outro teste na internet pode esclarecer tudo?
Antes de interpretar um resultado, procure o nome do instrumento, a fonte e as instruções. A expressão «teste científico» não é suficiente para explicar o que está a ser medido. Uma proposta editorial como esta continua a ser um apoio à reflexão.
Qual pode ser o próximo passo?
Escolha a questão que mais lhe importa e pense com quem a pode conversar. Pode levar um exemplo e perguntar que formas de apoio se adequam à sua situação. Não precisa de se diagnosticar para que a sua preocupação seja ouvida.
Recursos para continuar a reflexão
Estes recursos são facultativos e não substituem uma avaliação profissional.Em resumo: Estas oito perguntas ajudam a descrever a sua relação com os alimentos doces. Não constituem um teste validado nem uma versão da Yale Food Addiction Scale. Não fornecem um diagnóstico, uma pontuação ou um grau de dependência. Se a alimentação lhe causa sofrimento ou episódios repetidos de perda de controlo, pode usar as suas observações para conversar com um profissional de saúde.

Sobre o autor
Gildas Garrec · profissional TCC
Autor de livros e artigos sobre psicologia aplicada e relacionamentos.
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