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Pelé: o que sua mentalidade construiu, visto pela psicologia do esporte


Em resumo: Pelé aprendeu futebol nas ruas de Bauru, com uma bola feita de meia cheia de trapos, antes de ingressar no Santos aos quinze anos. Essa trajetória, muitas vezes contada como um detalhe pitoresco, corresponde na verdade a um mecanismo hoje bem documentado pela psicologia do esporte: o jogo livre, não estruturado, constrói uma forma de expertise perceptiva — a capacidade de ler uma jogada antes que ela se forme por completo — que o treino orientado, mais previsível, exercita menos. Esse legado merece ser entendido pelo que realmente é: um mecanismo real, não uma receita, e certamente não um argumento a favor da pobreza como método de formação.

Existe um risco, em qualquer retrospectiva dedicada a um grande jogador que já se foi, de transformar uma trajetória real em lenda arredondada — uma criança pobre, um talento bruto, um destino que quase se cumpre por necessidade. A história de Pelé se presta particularmente a esse tipo de narrativa: nascido em extrema pobreza em Bauru, no interior de São Paulo, ele mesmo documentou ter aprendido a jogar com uma bola feita de meia cheia de trapos, nas ruas de sua cidade, antes de ingressar aos quinze anos no Santos, o clube que o revelaria. A psicologia do esporte permite hoje dizer algo mais preciso do que a lenda sobre o que essa trajetória de fato pôde construir — e apontar, com a mesma clareza, o que ela não prova.

O que o futebol de rua treina, e que o treino estruturado treina menos

O livro Na Cabeça dos Campeões do Futebol dedica um capítulo inteiro ao que a pesquisa chama de expertise perceptivo-cognitiva — a capacidade, medida pelo rastreamento dos movimentos oculares e pelo reconhecimento de padrões de jogo, de antecipar uma situação antes que ela esteja completamente formada. Um iniciante tende a fixar o olhar na bola; um jogador experiente observa quem está com a bola, mas também o posicionamento dos apoios de um adversário, a orientação do quadril, os espaços que se abrem na periferia do campo de visão. Essa diferença não vem de um tempo de reação fisiológico superior: dois jogadores podem ter tempos de reação idênticos e uma diferença enorme de desempenho, porque um deles recebe a informação antes do outro.

O ponto mais importante desse capítulo trata de como essa expertise se constrói. Ela não é inata como seria uma estatura excepcional. Adquire-se por uma exposição massiva e prolongada a um jogo variado o suficiente para forçar o cérebro a processar um grande número de configurações diferentes — e não pela repetição de exercícios padronizados dentro de um esquema rígido. O futebol de rua, em sua forma menos organizada, sem técnico, sem estrutura fixa, com regras combinadas entre as próprias crianças e um número de jogadores que varia de uma partida para outra, foi por muito tempo considerado, sobretudo em estudos sobre o desenvolvimento de talento no Brasil e na Argentina, um terreno especialmente fértil para esse tipo de expertise: a variabilidade extrema das situações enfrentadas obriga a criança a desenvolver uma capacidade de adaptação perceptiva que um treino mais previsível exercita menos.

A trajetória de Ronaldinho Gaúcho, formado nas categorias de base do Grêmio, em Porto Alegre, ilustra o mesmo mecanismo de forma institucionalizada: ele passou boa parte da infância praticando futsal — modalidade disputada em quadra, com times reduzidos e uma bola mais pesada e menos elástica — que o próprio jogador cita como origem de sua capacidade de improviso e de sua visão de jogo em espaços curtos. Uma comparação direta entre práticas de treino brasileiras e espanholas, conduzida por pesquisadores que observaram o tempo dedicado a diferentes tipos de exercício nos dois países, constatou que os jovens jogadores brasileiros passavam mais tempo do que seus equivalentes espanhóis em formatos que exigem fortemente a tomada de decisão. Essa diferença no volume de treino voltado à decisão, mais do que uma diferença de talento inato, oferece uma explicação coerente com o mecanismo observado em Pelé: não é que os jovens jogadores brasileiros percebam o jogo de forma diferente desde o nascimento, é que acumulam, em média, mais horas em formatos que constroem justamente essa percepção.

O que esse mecanismo não permite concluir

É preciso estabelecer aqui um limite que a própria pesquisa impõe, e que a lenda tende a apagar: a expertise perceptiva do Pelé criança evidentemente nunca foi medida por nenhum instrumento científico — não pode, portanto, ser tratada como fato, apenas proposta como hipótese coerente com uma trajetória documentada e com um mecanismo hoje bem identificado pela pesquisa em populações muito mais amplas.

Um segundo limite merece ser colocado com o mesmo rigor, porque toca em uma leitura perigosa desse tipo de trajetória. O livro dedica um capítulo à parte a um resultado de pesquisa frequentemente mal interpretado: as carreiras excepcionais quase sempre atravessaram alguma dificuldade séria, e a forma de reagir a ela conta mais do que sua gravidade. Esse resultado, estabelecido pelos pesquisadores Dave Collins e Áine MacNamara a partir de 2012, foi retomado de forma equivocada em alguns discursos de treinadores como justificativa para métodos duros, ou até para uma adversidade imposta de propósito. O livro é direto nesse ponto: um ambiente deliberadamente tornado mais duro ou mais precário produz, na imensa maioria dos casos documentados, apenas desistências prematuras — crianças que abandonam o esporte sem nunca chegar ao nível que a dificuldade supostamente ensinaria. Essas desistências, por definição, não deixam nenhum rastro nas biografias dos jogadores que se tornaram famosos: só sobra, no relato retrospectivo de uma trajetória bem-sucedida, os raros casos em que a pobreza e a precariedade não impediram o sucesso — nunca os inúmeros casos, estatisticamente muito mais numerosos, em que impediram. Contar a pobreza de Pelé como um ingrediente do seu sucesso, em vez de um obstáculo que ele atravessou apesar de tudo, cai exatamente no viés que a pesquisa convida a desmontar.

Comparar essa trajetória com as de Messi e Cristiano Ronaldo, sem cair no vocabulário vago da "mentalidade", é o exercício proposto por outro artigo desta série sobre o debate do GOAT.

Um legado que inspirou métodos de formação inteiros

O que a trajetória de Pelé ilustra continua, ainda assim, sendo real, e acabou influenciando, décadas depois, a forma como instituições inteiras estruturam hoje a formação de jovens jogadores. O centro de formação do FC Barcelona, La Masia, construiu seu método sobre um princípio diretamente aparentado ao do futebol de rua: os jogos com equipes reduzidas e os exercícios de posse de bola em espaço curto, conhecidos como rondos, ocupam um lugar central desde a idade mais tenra, com uma filosofia costumeiramente resumida em uma frase: o próprio jogo é o melhor professor. Aitana Bonmatí, três vezes vencedora da Bola de Ouro feminina, foi formada segundo os mesmos princípios nessa mesma academia — prova de que esse mecanismo não depende de nenhuma característica exclusiva do futebol masculino.

Esse deslocamento institucional — de um jogo de rua não organizado para um jogo reduzido deliberadamente concebido para reproduzir seus efeitos — não é trivial. Ele traduz algo que Pelé jamais pôde escolher conscientemente quando criança, mas que a pesquisa hoje identifica com clareza suficiente para organizar de propósito: não é a pobreza que constrói a expertise perceptiva, é a variabilidade e a frequência das situações de decisão enfrentadas — duas qualidades que um clube bem equipado consegue recriar sem precisar expor nenhuma criança à precariedade.

O que um jogador ou um pai pode aproveitar disso hoje

A trajetória de Pelé não é um modelo a imitar em nenhuma de suas circunstâncias materiais — ninguém deveria tentar reproduzir a pobreza de Bauru para formar um futuro grande jogador. Continua, porém, sendo um modelo instrutivo em um ponto específico, amplamente acessível independentemente dos recursos disponíveis: o espaço que o jogo livre, não conduzido por um adulto, sem cobrança de resultado imediato, ocupa na rotina de uma criança que também pratica um treino estruturado. O livro Na Cabeça dos Campeões do Futebol detalha esse mecanismo, suas fontes e seus limites metodológicos em seu quarto capítulo, ao lado dos outros cinco mecanismos que a pesquisa hoje identifica como responsáveis por distinguir, depois do fato, as trajetórias mais bem-sucedidas.

O que a história de Pelé constrói, no fim das contas, não é a prova de que era preciso ser pobre para se tornar excepcional. É a demonstração de que parte do que faz um grande jogador se constrói fora do campo de treino orientado — em horas de jogo livre, variado, sem cobrança, que a formação moderna hoje busca, com meios muito diferentes, recriar de propósito.

Gildas Garrec, Psychopraticien TCC

A propos de l'auteur

Gildas Garrec · profissional TCC

Psychopraticien certifie en therapies cognitivo-comportementales (TCC), auteur de 16 ouvrages sur la psychologie appliquee et les relations. Plus de 1000 articles cliniques publies sur Psychologie et Serenite.

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