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De Messi a Mbappé: ninguém podia prever quem se tornaria um grande craque


Existe uma pergunta que praticamente todo jovem jogador de futebol faz a si mesmo, quase sempre sem colocar em palavras: será que eu tenho o que é preciso? Os pais dele também se perguntam isso. Os treinadores, às vezes. E todo o sistema de formação, das categorias de base aos olheiros, foi construído para responder a essa pergunta o quanto antes.

Foi essa pergunta que deu origem a Na Cabeça dos Campeões do Futebol, um livro que estará disponível em breve em edição digital. Confira agora a página do livro, ainda em preparação, para conhecer o conteúdo antes do lançamento.

Passei vários meses lendo o que a pesquisa em psicologia do esporte realmente diz sobre essa pergunta, cruzando com meu referencial de trabalho de sempre, a terapia cognitivo-comportamental, e confrontando tudo isso com as trajetórias públicas de onze dos maiores jogadores da atualidade ou recém-aposentados: Messi, Cristiano Ronaldo, Mbappé, Zidane, Haaland, Vinícius Júnior, Bellingham, Lamine Yamal, Salah, Neymar, Lewandowski, além de Aitana Bonmatí, Marta e Ada Hegerberg.

O resultado cabe em uma frase, e essa é a tese do livro: a pesquisa identifica, depois do fato consumado, o que distingue as carreiras excepcionais — mas nada disso permitia prever, no adolescente que eles foram, quem eles se tornariam.

Dá para ler essa frase como uma decepção. Prefiro lê-la de outro jeito. Se ninguém conseguia prever o Messi, ninguém também consegue te tirar definitivamente da lista.

Três mitos que os próprios craques desmentem

As dez mil horas. Cristiano Ronaldo, Haaland e Lewandowski tornaram públicas rotinas de treino e recuperação de um rigor extremo, e isso virou "prova" de que só o trabalho já basta. A maior metanálise sobre o assunto diz outra coisa: a quantidade de prática deliberada explica cerca de 18% do desempenho esportivo. O trabalho conta, e muito. Mas não explica o resto. Esses três jogadores mostram que o trabalho extremo existe — não que ele seja suficiente sozinho —, e o livro insiste nessa diferença. A criança "adiantada". As categorias de base estão cheias de crianças nascidas no início do ano, porque aos dez anos, onze meses de diferença representam uma vantagem física que os olheiros costumam confundir com talento. Só que o efeito se inverte no topo. As datas de nascimento dos jogadores do livro mostram isso: Messi, Zidane, Salah, Bellingham, Haaland, Vinícius e Yamal nasceram todos em junho ou julho, na segunda metade do respectivo ano de seleção. E Kylian Mbappé, o mais precoce de todos, nasceu em 20 de dezembro. Onze casos não provam nada estatisticamente, mas são coerentes com o que a pesquisa descreve: nascer cedo abre a porta da base, não diz quem vai sair por ela. A mente de aço. A ideia popular não resiste bem a uma análise mais atenta. O que existe são competências precisas e que podem ser aprendidas, e o livro nomeia cada uma delas.

O que essas trajetórias têm em comum

O coração do livro são mecanismos, e os jogadores aparecem para ilustrá-los, nunca para serem analisados.

Nenhuma dessas trajetórias é uma linha reta. Uma série de estudos que comparou "supercampeões" com "quase campeões" mostrou que o que separa os primeiros não é a ausência de obstáculos, e sim a resposta ao obstáculo. Messi passou por um tratamento médico na infância que ele mesmo já relatou publicamente, e deixou a Argentina aos treze anos. Ronaldo saiu da Madeira para Lisboa aos doze. Lewandowski perdeu o pai aos dezesseis anos, bem quando a carreira dele estava decolando. Haaland é filho de um jogador profissional cuja carreira foi interrompida por lesão. As dificuldades não têm nada a ver umas com as outras. O ponto em comum é simplesmente que existe uma em cada história.

Essa distinção entre o acontecimento e o que se faz com ele é exatamente o que a TCC trabalha. Entre o obstáculo e a resposta a ele, existe um pensamento, e esse pensamento pode ser treinado.

A regulação emocional pode falhar, mesmo no topo. O livro dedica um capítulo ao que acontece quando uma emoção contida por muito tempo explode de uma vez, apoiando-se no episódio mais comentado da carreira de Zidane, a final de 2006, seguindo estritamente o que o próprio Zidane e Materazzi contaram sobre aquilo. O mecanismo é universal; o exemplo é um que todo mundo já conhece. O contexto não é uma questão individual. Marta cresceu em Dois Riachos, uma pequena cidade do interior brasileiro, e jogava com meninos porque não havia time feminino. Vinícius Júnior sofreu agressões racistas na Espanha que resultaram em condenações judiciais. Sobre esse último caso, o livro recusa qualquer leitura psicológica: uma reação a uma agressão fala sobre a agressão, não sobre quem a sofreu. É uma das páginas de que mais me orgulho. A rede de apoio é um fator de sobrevivência, não de desempenho. Os pais de Mbappé, os dois ex-atletas, administraram a carreira dele com uma constância que se tornou conhecida. Ada Hegerberg vem de uma família em que o pai, a mãe e a irmã praticaram esporte de alto nível. Salah manteve o círculo familiar fora de qualquer exposição midiática por mais de dez anos. Três modelos diferentes, uma mesma função: permitir que o jogador atravesse uma lesão ou uma crise sem que sua identidade inteira se resuma ao resultado do fim de semana.

O que o livro se recusa a dizer

O capítulo mais importante para um leitor jovem é o do viés do sobrevivente. Tudo o que sabemos sobre Messi ou Yamal vem de carreiras já consolidadas, observadas depois do fato. Quase não sabemos nada sobre as dezenas de milhares de trajetórias que tinham as mesmas características e simplesmente pararam no meio do caminho. Na Inglaterra, menos de um por cento dos jogadores contratados por uma categoria de base antes dos dezesseis anos chega a ser profissional.

É por isso também que o livro não traça nenhum perfil psicológico. Nenhum jogador citado recebe diagnóstico ou perfil. Eles ilustram mecanismos a partir de fatos públicos que eles mesmos contaram, e o livro repete isso em cada capítulo. Lamine Yamal, por exemplo, nunca é analisado como pessoa: ele era menor de idade na época dos fatos que o tornaram conhecido, e o livro se limita ao que sua precocidade revela sobre o sistema — não sobre ele.

Por que a detecção de talentos erra

A captação de talentos mede o que sabe medir: altura, velocidade, maturidade física. E esses são justamente os critérios que a pesquisa identifica como os menos preditivos. O sistema não erra por incompetência. Ele otimiza o que pode cronometrar, e o que fez o Messi não se cronometra.

Para um jogador, isso mostra o que o próximo observador vai conseguir ver dele numa única sessão de avaliação, o que ele não vai conseguir ver, e o que ele pode tornar visível por conta própria.

Para quem é este livro

Escrevi para o próprio jogador, entre quinze e vinte e cinco anos, na base ou em um clube, com ambição de verdade. O livro fala diretamente com ele, e essa é uma novidade na coleção. Também fala com os pais e treinadores dele, com um aviso que repito aqui: nada na pesquisa autoriza endurecer deliberadamente o ambiente de um jovem para "forjá-lo". O que se vê em Ronaldo ou Lewandowski não é um programa de treino a ser copiado.

Este não é um livro de preparação mental. É um livro de terapia cognitivo-comportamental aplicada a um público específico. Ele termina com um programa de oito semanas, construído como os protocolos dos meus outros livros: uma semana de avaliação inicial, seis semanas para seis competências, uma semana de consolidação, um diário para acompanhar o processo. Não promete nenhum resultado esportivo. Promete um progresso mensurável em competências que, essas sim, dependem de você.

O que eu espero

Que um jogador de dezessete anos que acabou de saber que não foi convocado abra o capítulo sobre a não convocação antes de qualquer outro. Que um pai leia o capítulo sobre a rede de apoio antes da próxima volta para casa depois de um jogo. E que os dois fiquem com esta ideia: o que Messi, Bonmatí ou Zidane construíram não dá para copiar, mas as únicas predisposições que se aprendem são as mesmas para todo mundo.

Na Cabeça dos Campeões do Futebol está em fase final de preparação e será lançado em breve em edição digital neste site. Confira agora a página do livro que está por vir, com o resumo completo e o programa de oito semanas.
Gildas Garrec, Psychopraticien TCC

A propos de l'auteur

Gildas Garrec · Psychopraticien TCC

Psychopraticien certifie en therapies cognitivo-comportementales (TCC), auteur de 16 ouvrages sur la psychologie appliquee et les relations. Plus de 1000 articles cliniques publies sur Psychologie et Serenite.

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