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Lesão no futebol: a psicologia da reabilitação, além do joelho que cicatriza


Em resumo: Uma lesão esportiva grave interrompe uma carreira de duas formas diferentes, que raramente aparecem na ordem que se imagina. A primeira interrupção é física, e se resolve, na maioria dos casos, com tempo e reabilitação. A segunda é psicológica, e pode persistir muito depois de o corpo já ter se recuperado: o medo de se machucar de novo, exatamente no momento em que seria preciso jogar sem se conter. Uma revisão sistemática sobre reconstruções de ligamento cruzado anterior constatou que, entre os atletas operados que nunca recuperam o nível anterior à lesão por um motivo psicológico, 76,7% citam esse medo como principal razão — não a dor, não a fraqueza muscular, o medo em si.

Um joelho submetido a uma reconstrução do ligamento cruzado anterior pode recuperar, de seis a nove meses depois da cirurgia, uma força e uma estabilidade comparáveis às da outra perna em testes físicos padronizados — amplitude de movimento, força do quadríceps, estabilidade dinâmica. Mesmo assim, uma parcela significativa dos atletas que passaram por essa reabilitação com sucesso do ponto de vista físico nunca voltam ao seu melhor nível. A pesquisa em psicologia do esporte identificou, nos últimos anos, por que essa defasagem acontece com tanta frequência — e o que isso significa, na prática, para a forma como um retorno deveria ser organizado. O livro Na Cabeça dos Campeões do Futebol dedica um capítulo inteiro a esse mecanismo.

Um modelo que descreve um círculo, não uma linha reta

As pesquisadoras Diane Wiese-Bjornstal e colegas propuseram, em 1998, um modelo que continua sendo a referência para entender a resposta psicológica a uma lesão esportiva. Esse modelo descreve um processo dinâmico, não uma reação única: fatores pessoais e situacionais — histórico de lesões anteriores, recursos de ajustamento já disponíveis na pessoa, gravidade percebida da lesão — influenciam uma avaliação cognitiva do episódio, ou seja, a forma como o atleta interpreta o que acabou de acontecer com ele. Essa avaliação, por sua vez, molda respostas emocionais e comportamentais que evoluem ao longo de toda a reabilitação, em um movimento circular, não linear: um dia ruim na recuperação física pode reativar um pensamento negativo, que pode desacelerar o engajamento nos exercícios de reabilitação, o que pode, por sua vez, desacelerar a própria recuperação física.

Esse modelo tem uma consequência direta, e muitas vezes subestimada: a velocidade de cicatrização do tecido — ligamento, músculo, osso — é só uma parte da equação. A forma como o atleta interpreta cada etapa dessa cicatrização conta tanto quanto o resto para determinar em que momento, e em que estado psicológico, ele de fato voltará ao campo.

O número que muda o foco: 76,7%

Um conjunto de estudos com atletas submetidos à reconstrução do ligamento cruzado anterior — uma das lesões mais estudadas do esporte — trouxe um resultado que desloca o olhar sobre a cura. Uma revisão sistemática publicada em 2019 por Benedict Nwachukwu e colegas, sobre os motivos pelos quais atletas operados nunca voltavam ao seu nível anterior, constatou que, entre os pacientes que apontaram um motivo psicológico e não puramente físico, 76,7% citavam o medo de se machucar de novo como razão principal. Para a grande maioria dos que não voltam ao seu melhor nível depois de uma lesão grave, portanto, não é o joelho, o posterior de coxa ou o tornozelo que os impede uma vez terminada a reabilitação — é um medo que ocupou o espaço deixado pela incerteza.

Os pesquisadores medem esse medo, em seus estudos clínicos, com um instrumento chamado escala de cinesiofobia de Tampa, que avalia o receio de se movimentar e de reativar uma dor. Essa ferramenta foi feita para ser aplicada e interpretada por um profissional treinado, dentro de uma avaliação estruturada — não deveria ser usada como autoteste feito sozinho, o que equivaleria a fazê-la dizer, fora do contexto clínico que lhe dá sentido, mais do que ela pode dizer isoladamente. O que a pesquisa estabelece com esse instrumento, no entanto, é claro: o medo de recaída é um fenômeno real, frequente, mensurável, e amplamente independente do estado real de cicatrização do corpo.

Dois joelhos idênticos, duas trajetórias diferentes

A literatura sobre reconstrução do ligamento cruzado anterior distingue, do ponto de vista puramente funcional, os "copers" — pacientes que recuperam estabilidade suficiente do joelho em testes físicos padronizados — dos "non-copers", que não conseguem isso mesmo com uma reabilitação comparável. Um resultado se soma a essa classificação física, em vez de substituí-la: vários estudos mostram que o nível de medo do movimento, medido ao longo da reabilitação, está associado à função do joelho depois da cirurgia, independentemente de o atleta ter sido classificado como coper ou non-coper no início. Dois jogadores enquadrados na mesma categoria física ao saírem da cirurgia podem, portanto, ter trajetórias funcionais diferentes de acordo com o nível de medo que acompanha sua reabilitação — a dimensão psicológica acrescenta uma informação que os testes físicos, sozinhos, não captam.

Esse dado tem uma implicação concreta para a forma como um retorno deveria ser organizado: um protocolo que segue apenas critérios físicos pode declarar um jogador "pronto" sem que sua relação com o próprio corpo esteja pronta ainda. É um dos motivos pelos quais os protocolos mais recentes de retorno ao esporte buscam incluir, ao lado dos testes físicos, uma medida da confiança percebida do jogador em relação à área lesionada.

Quando a identidade oscila durante o afastamento

Uma lesão longa não interrompe apenas uma atividade física; ela tira abruptamente do jogador o vestiário e a rotina coletiva que estruturavam seu dia a dia, com uma incerteza sobre a data de retorno que nenhuma reabilitação, por melhor conduzida que seja, consegue eliminar de antemão. A pesquisa em psicologia do esporte sobre identidade atlética — o grau em que uma pessoa se define pelo papel de jogador — mostra que essa identificação vira um fator de vulnerabilidade justamente no momento em que a atividade que a alimenta é interrompida. Uma lesão grave costuma reunir as piores condições sob essa ótica: é súbita, isola, e vem acompanhada de uma incerteza duradoura.

Esse mesmo mecanismo de identidade atlética, e o papel protetor de referências pessoais fora do campo, é discutido em maior profundidade em outro artigo desta série.

Os dias que seguem o anúncio de uma lesão séria costumam trazer um pensamento automático do tipo "vão tirar minha vaga" ou "vão esquecer de mim" — um pensamento que não é absurdo em sua constatação, mas que pula direto para a conclusão mais ameaçadora sem examinar os outros desfechos possíveis. O comportamento que segue costuma assumir uma de duas formas opostas, ambas igualmente pouco úteis: o superinvestimento precoce na reabilitação, com risco real de recaída que prolonga o afastamento inicial, ou o desinvestimento — comparecer sem energia às sessões de fisioterapia, com o pensamento de que "de qualquer forma, nada vai mudar o resultado".

O momento mais revelador: o primeiro contato depois da reabilitação

O momento mais revelador costuma ser o primeiro treino coletivo depois da reabilitação individual. Uma hesitação em um contato que, antes da lesão, não representava nenhum problema — um leve atraso em uma disputa de bola, um desvio discreto de uma situação de risco — sinaliza a presença desse medo de recaída, independentemente do que os exames médicos indicam sobre o estado real do joelho ou do músculo. Reconhecer essa hesitação pelo que ela é — uma reação de proteção normal, não um sinal de que a lesão não sarou — é o primeiro passo para atravessá-la em vez de sofrê-la em silêncio.

Nada disso significa que uma lesão deva ser minimizada, nem que bastaria "pensar positivo" para voltar mais rápido — a cicatrização física segue seu próprio ritmo, que nenhum trabalho psicológico pretende acelerar. É preciso resistir também à ideia contrária, igualmente enganosa: a de que uma hesitação persistente depois de uma lesão indicaria falta de coragem ou de determinação. Os estudos citados aqui envolvem populações inteiras de atletas, não casos isolados, e mostram que esse medo atinge uma proporção importante de atletas por outro lado plenamente engajados em sua modalidade. Não é uma fatalidade a que seria preciso se resignar, nem um defeito de caráter a se culpar: é um fenômeno esperado, documentado, que responde a um trabalho específico, e não a um esforço genérico de vontade.

Um caderno de acompanhamento para as semanas de afastamento

A cada semana de reabilitação, vale anotar três coisas distintas: um fato médico objetivo da semana — o que o fisioterapeuta ou o médico constatou, independentemente da sensação pessoal —; um pensamento automático que voltou várias vezes durante a semana sobre o retorno ou a vaga no time; e uma ação, por menor que seja, de fato realizada naquela semana pela reabilitação ou para manter o vínculo com o grupo. Ao retomar o treino coletivo, antes da primeira situação de contato ou de disputa, nomear por escrito o pensamento exato que acompanha a apreensão, e depois reformulá-lo de forma mais realista a partir dos fatos médicos objetivos anotados no caderno — e não apenas da sensação do momento — não elimina a hesitação já no primeiro contato, mas ajuda a diferenciá-la de um sinal de alarme real, permitindo continuar jogando normalmente enquanto ela diminui com a retomada gradual da confiança.

Esse mecanismo, uma das quatro situações concretas tratadas na terceira parte do livro Na Cabeça dos Campeões do Futebol, ao lado da não convocação, do papel do entorno e da pressão da partida, vem acompanhado, na obra, de um protocolo completo de oito semanas para trabalhar, de forma mais ampla, a regulação emocional sob pressão.

Gildas Garrec, Psychopraticien TCC

A propos de l'auteur

Gildas Garrec · profissional TCC

Psychopraticien certifie en therapies cognitivo-comportementales (TCC), auteur de 16 ouvrages sur la psychologie appliquee et les relations. Plus de 1000 articles cliniques publies sur Psychologie et Serenite.

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